INÊS NORTON

Do meu lugar, o que eu vejo

Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes, Colecção Figueiredo Ribeiro

(Por Hugo Dinis)

A artista Inês Norton (Lisboa, 1982) apresenta um conjunto de obras recentes e outras inéditas na exposição Do meu lugar, o que eu vejo. Através de uma panóplia de técnicas e meios artísticos, desde fotografia, escultura, vídeo ou instalação, a artista questiona pertinentemente, num tom entre o político e o poético, as controvérsias e consonâncias dos conceitos de natural e de artificial, ambos entendidos num sentido alargado. Por um lado, natural pode ser definido pela essência da natureza, ou seja, a vida das coisas e do universo. Nesta categoria encontram-se as plantas, os animais, a água, as paisagens naturais, etc. Por outro lado, o artificial pode ser visto como aquilo que foi construído pelo homem, ou seja, a sua marca e a artificialidade que adicionou ao mundo vivenciado. Neste caso, encontram-se os edifícios, os materiais sintéticos, os objectos, etc. Apesar de estes dois mundos se confrontarem em posições opostas e definitivas – o que é natural não é artificial, nem o contrário é possível –, existe um diálogo que se estabelece sempre no momento do seu encontro. Neste sentido, as obras de Inês Norton espelham a possibilidade desse choque que potencia a experiência sensorial e emocional, mas também intelectual e conceptual, perante as obras. Ao olhar para o mundo, numa estreita relação com o meio que a rodeia, a artista, perante uma experiência participativa do lugar, edifica estruturas que controlam e domesticam a natureza selvagem. Estas estruturas artificiais, provenientes de uma acção humana, aculturam as coisas naturais. A transformação da natureza em construção e a relação de ambas com este fenómeno de aculturação em dispositivos visuais revelam uma ironia e humor que implicam com os sistemas dogmáticos pré-concebidos, nomeadamente, as ideias sobre política ecológica e os objectos que se produzem com esse efeito. Assim, as obras contêm em si mesmas um lugar privilegiado que, em conceitos visuais e linguísticos, intermedeia a visão própria, mas não inequívoca, e a realidade percepcionada e sentida.

Os conceitos de natural e artificial podem ser desviados, respectivamente, para os conceitos de natureza e arquitectura. A palavra natureza vem do latim natura, que significa nascer no futuro, ou seja, a força que gera. Natura é a tradução latina da palavra grega physis, que significa a forma inata como crescem espontaneamente as plantas e os animais. Neste sentido, pode-se considerar que quando se trata de natureza na arte, esta deve ser vista como a possibilidade de criar novas visões ou novos mundos que permitam a possibilidade de algo acontecer. Mas esta procura deve compreender que existe algo de natural, ou próprio, nos objectos, que encontra uma fenda para aparecer. Este espaço encoberto e misterioso, como se de uma floresta densa se tratasse, precisa de uma arquitectura, mesmo que simbólica, para o fazer aparecer. A palavra arquitectura vem do grego arkhé, que significa primeiro ou principal, e tékhton, que significa construção, ou seja, construção primária. Assim, a obra de arte estará disponível para surgir perante a abertura da possibilidade do encontro entre natureza e arquitectura.

 

INÊS NORTON

Do meu lugar, o que eu vejo

Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes, colecção Figueiredo Ribeiro

(Por Susana Rodrigues)

A exposição da artista Inês Norton, Do meu lugar, o que eu vejo, leva-nos precisamente até ao lugar em que a artista se refugiou nos últimos anos. Um lugar onde a Natureza ainda impera e pode ser contemplada a seu tempo e, talvez por isso, ponha a nu toda a ação humana que a tenta dominar e, em simultâneo, replicar. Esta relação esquizofrénica do Homem com a Natureza tão premente no mundo capitalista em que vivemos aparece-nos aqui, em Abrantes, representada, por vezes, de forma irónica através de uma seleção de obras da artista feita pelo curador Hugo Dinis.

No espaço de arte quARTel, dedicado à coleção de Figueiredo Ribeiro, constam uma série de trabalhos de Inês Norton que vão desde instalação, fotografia, escultura e vídeo. À entrada da exposição a projeção de vídeo, A árvore quando morre, devolve à terra o que esta lhe emprestou (2017), utiliza a sombra de uma raíz suspensa no espaço por cabos de aço para ir construindo e animando a imagem que vemos projetada.  A terra que vai caindo e enterrando a raíz mais não é do que um mirífico momento de contemplação, numa alusão ao tempo, ao ciclo de vida da natureza em que tudo se transforma.

Na sala principal do piso 0 deparámo-nos com um conjunto de obras dispersas pelo chão e paredes. Algumas das peças poderão levar-nos até ao movimento minimalista, seja pela escolha dos materiais como o ferro, o vidro, a madeira, quer pelas formas simétricas e modulares que constituem algumas das suas instalações e esculturas.  Objetos industrializados, os chamados readymade, são integrados em alguns dos trabalhos tridimensionais. Contudo, num olhar mais atento, percebemos que o trabalho de Inês Norton ultrapassa o formalismo, abrangendo o poético e o ético. Into de Land (2018) trata-se de uma imagem composta por um corpo nu de mulher em sobreposição a elementos da natureza paisagística captados pela artista no lugar, uma referência ao belo e ao sensual que nos circunda, seja o corpo feminino, sejam as pedras que marcam o território e o passar do tempo e a vegetação que vai preenchendo e povoando esse espaço calcado por estas. Em contrapartida, a peça Camouflage (2018), uma caixa colocada no chão coberta de terra com alguns aparelhos eletrónicos enterrados, já nos remete para a falta de simbiose entre o Homem e a Natureza. E aqui não será inadequado trazer outras referências como o movimento que terá emergido nos anos oitenta, o Eco arte, seguido por artistas que de alguma forma demonstravam uma preocupação em relação à intervenção humana nos processos naturais. Ou então, e recuando ainda um pouco mais, o movimento Land Art, nascido nos finais dos anos 60, no sentido em que este terá surgido também, mas não só, como resposta ao nascimento do ambientalismo naquele período, rejeitando um mundo centrado no Homem em favor de um que vê o Homem como elemento de um ecossistema maior.

A provocação está presente nos trabalhos Behind the Post Card (2018) e All natural (2018), em que de forma irónica somos conduzidos até às manobras publicitárias e de marketing utilizadas cada vez mais por grandes multinacionais que tentam projetar uma imagem de quem se preocupa com a sustentabilidade para poderem capitalizar junto da opinião pública (e ao mesmo tempo seus consumidores) cada vez mais desperta para esses temas.

A ironia também se estende à peça situada no andar de cima do espaço expositivo, Escapismo insonorizado (2018), que ilustra uma tendência da sociedade atual que se dedica a recriar ambientes “naturais” como espaços de fuga e meditação perante a urbanidade ruidosa e sufocante.  Esta artificialidade está representada de forma mais literal na obra Synthetic playground (2018), um rolo de relva sintética que atravessa esse piso subindo até à parede como se de uma passadeira real se tratasse.

A forma como manipulamos a natureza e a integramos na ação do homem, descontextualizando-a, forçando-a, transformando-a, leva-nos até aos trabalhos Simbiose I (2018) e Simbiose II (2018) em que troncos, pedaços de musgo, e pedras são domesticados utilizando correntes e estruturas de ferro que mais parecem asfixiar esses elementos ao belo prazer da intervenção humana. Esta ação, é sabido, e cada vez mais experienciado, coloca em causa a sustentabilidade ambiental tal como a peça, Paisagem sustentável (2018), feita de lona de plástico com uma paisagem impressa e sustentada por um grampo nos ilustra de forma metafórica. Por outro lado, na instalação Unrooted (2013), já se apresenta o elemento natural em lugar de destaque.  Neste caso vários troncos de árvore numa relação harmoniosa com o material ferro, a luz, e o desenho.

Nesta exposição a artista Inês Norton recorre, sobretudo, às formas híbridas da escultura, fotografia, e arquitetura, as quais traduzem as fortes relações entre a humanidade e a natureza. Entrar nela ultrapassa uma experiência estética, leva-nos a questionar as idiossincrasias em que vivemos.  Anuímos na importância da preservação da natureza para o equilíbrio do ecossistema ao mesmo tempo que a desvalorizamos e a subvertemos em prol do avanço industrial e tecnológico e da sociedade consumista em que vivemos. Esse lugar onde a artista nos faz transportar é uma forma de nos fazer ver também. Leva-nos a refletir, a contemplar, e a admirar, ao mesmo tempo que nos indigna e revolta. É uma análise social e política, mas também pessoal. A transubstanciação ocorre quando, como espectadores, formos capazes de decifrar, interpretar e acrescentarmos a nossa própria contribuição ao processo criativo, tal como dizia Duchamp.